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É o fim do mundo
21/02/2007 - O tom catastrófico dos relatos do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas teve seu ápice com as declarações do presidente Jacques Chirac que, como bom francês, propôs uma revolução para salvar o mundo. Para entrar no clima, oportunamente todos se esmeraram para chover no molhado e chocar a população globalizada com um arsenal de novidades requentadas, ainda que superaquecidas. A mais desconcertante, contudo, foi a constatação de que 90% das causas da loucura do clima cabem à irresponsabilidade humana.

A inclusão do Brasil entre os países relutantes em conter suas emissões causou inconformismo no líder empresarial Antônio Ermírio (A Notícia, 4/2/2007, p. A3). Ele afirma que a acusação é indevida, pois no Brasil a proteção a proteção da natureza é coisa antiga, que já vem desde o século 16. Complementa dizendo que o Brasil é um dos países que mais preservam suas florestas. Por isso, continua, temos muita moral para reagir contra ataques gratuitos de lobistas de grupos suspeitos.

Antônio Ermírio parece mesmo acima de qualquer suspeita. Ícone do capitalismo tupiniquim, incorpora a decantada excelência da parte do empresariado nacional que não mede esforços para tornar o mundo menos equânime, ampliando as desigualdades que submetem milhões à pobreza. No Brasil de Antônio Ermírio, a natureza é vista como ativo ou obstáculo. No primeiro caso, a competência empresarial de grupos insuspeitos como a Votorantim logo trata de privatizá-la. Por outro lado, quando a natureza se impõe como obstáculo aos projetos desenvolvimentistas, de pronto, identificam o Estado incompetente como responsável e razão maior de todas as crises do infalível capitalismo. O Estado por sua vez, corrupto e subserviente, literalmente move montanhas para viabilizar o lucro privado.

Num Brasil que Antônio Ermírio parece desconhecer, a mata atlântica praticamente sumiu do mapa, parte considerável submersa nos lagos das hidrelétricas que fornecem a energia barata para a produção de cimento e alumínio. A Amazônia, por sua vez, segue seu ritmo de devastação em velocidade ainda maior. Nesse cenário, providencialmente protegido pelos fantasiosos consórcios, empresas de Antônio Ermírio, com generosos financiamentos governamentais, destroem florestas e montanhas, desviam e represam rios, expulsam populações tradicionais e impulsionam a utopia paranóica do desenvolvimento sustentado. Como se vê a proteção da natureza no Brasil é coisa antiga.

Considerando suas práticas empresariais, é compreensível a apreensão de Antônio Ermírio de Moraes, e sua agilidade em eximir o Brasil de responsabilidades, afinal as que o Brasil precisa efetivamente assumir significa redução de lucros para os ditos “barões ladrões”. Como os magnatas americanos do século 19, há empresários brasileiros que acreditam que estão acima da lei, pois, num Estado em que a corrupção é endêmica, basta ter o poder. O poder, é bom lembrar, não se afasta do dinheiro.

Infelizmente esse quadro não é exclusivo do Brasil. Maquiar balanços, conspirar e manipular valor de papéis, organizar cartéis, fraudar relatórios, entre outras barbaridades, são ações comuns no mundo corporativo, gerando prejuízos bilionários que fazem lendários bandidos como Al Capone, Pablo Escobar ou mesmo Fernandinho Beira-mar parecerem meros trombadinhas. Dominados por essa mentalidade predatória, resta acelerar o crescimento, afinal não temos responsabilidade alguma.

Autor: João de Deus Medeiros
Fonte: A Notícia 7/2/2007